Pablo Miyazawa é um dos editores da revista Rolling Stone. Foi editor da EGM Brasil, Nintendo World e Herói e colaborador da Folha,
Set e MTV. Também é sócio do coletivo Gardenal.org.





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26/06/2008 23:55

Game é Fashion

Coincidência ou não, tive contato duplo com a moda no último final de semana. Você deve estar pensando: "O que games têm a ver com isso, ainda mais neste blog". Explico. Ou melhor, não explico, porque realmente a moda e os games ainda estão longe de terem relações muito próximas (descontando alguns games que capricham no figurino fashion de seus personagens. Mas deixa pra lá). De qualquer forma, acabei visitando, por força da profissão, dois eventos que carregam a moda em seus nomes: o São Paulo Fashion Week e o World Cosplay Summit. E também por força da profissão, acabei observando mais relações entre os dois temas do que minha vã filosofia sonhava.

Na sexta, assisti ao desfile da grife Cavalera no maior evento de moda da cidade. Não poderia perder a chance de ver uma exibição dessas ao vivo - afinal, é um assunto tão alardeado hoje em dia que ignorar a oportunidade seria bobagem. Realmente, não perdi meu tempo. Ver um desfile ao vivo é realmente algo, goste você de moda ou não. Não posso dizer que compreendi o que ali se passava. As/os modelos adentram a passarela em alta velocidade, como se tivessem pressa, em marcha quase militar carregando expressão nenhuma e roupas que dificilmente serão vistas em um ambiente considerado "normal". Soube, posteriormente, que raramente as roupas exibidas em desfiles chegam às lojas. É comum os estilistas mostrarem serviço nessas ocasiões, dando pistas da tendência da coleção, mas não necessariamente colocando suas bizarras criações à disposição do consumidor. Vivendo e aprendendo.

Assim sendo, me pareceu que o desfile da marca em questão, esverdeado (verde é a cor da estação, dizem) e surreal (modelos "flutuaram", outros vestiam máscaras de porco, gorila, entre outros bichos) era mais uma exibição de idéias do que uma demonstração de produtos. Mais importante do que as roupas, era o evento em si, uma celebração de alguma coisa que dificilmente um leigo compreende à primeira vista. Foi legal estar lá, mas confesso que entendi pouco, ou quase nada. Valeu pela experiência. Se bem que muitas daquelas roupas poderiam bem vestir certas lutadoras gostosonas de games de lutas mais descolados. Foi só uma idéia que tive na hora, mas acho que é improvável que alguém naquele recinto teve o mesmo insight que eu...

***

Já no dia seguinte, sábado de celebração do Centenário da Imigração Japonesa, me dirigi ao Anhembi, onde ocorreria a final brasileira do World Cosplay Summit. O evento, organizado pela editora JBC, classifica uma dupla cosplayers para a final mundial, em Nagoya (Japão), onde os prêmios são mais polpudos e a visibilidade, bem maior. Fui convidado para ser jurado, como aconteceu nos últimos dois anos, e desta vez me senti um pouco melhor preparado para julgar o que se passaria no palco. Cosplay, costume player para os não iniciados, é uma arte levada muito a sério por quem a pratica. É impressionante o cuidado que os cosplayers têm com suas fantasias e performances. Dá a entender que a confecção da roupa e a elaboração da atuação levam pelo menos um ano inteiro, tamanha a dedicação com que as duplas se entregam frente aos jurados e à platéia.

Na primeira fila do Auditório Elis Regina, me posicionei entre Jum Nakao e Fábio Yabu. O primeiro é um estilista renomado, responsável há alguns anos pelo que ficou marcado como o "desfile da década" da Fashion Week (as modelos rasgaram as roupas, confeccionadas de papel, cujos pedaços eram disputados à tapa por fashionistas emocionados); o outro é hoje um dos artistas/desenhistas brasileiros mais bem sucedidos no exterior na atualidade (sua mais recente criação, As Princesas do Mar, virou um desenho animado exibido em 43 países - no Brasil, é atração do Discovery Kids). A duas poltronas para a direita se encontrava o Ricardo Cruz, antigo companheiro da editora Conrad e atual vocalista do Jam Project, supergrupo japonês de cantores de animesongs. O que pessoas de carreiras tão distintas teriam a contribuir para o julgamento da melhor dupla de cosplayers do país? Tudo, afinal, o cosplay é uma das manifestações pop mais diversificadas da cultura nipônica. Tem a ver com moda, animação, games, quadrinhos, música. Ou seja, essas nerdices que nós adoramos.

No fim das contas, o desfile dos cosplayers bateu longe o nível do ano passado. Uma primeira visualizada nas roupas dos concorrentes não dava muitas pistas do que estava por vir. Era em cima do palco, totalmente envolvidos com seus personagens, que os participantes se transformavam, e tudo aquilo passava a fazer sentido. Muitas duplas recriaram personagens de games e, contrariando a tendência do ano – e que foi a febre do ano passado -, poucas duplas apresentaram duelos de espadas (felizmente, pois ninguém reclamou). A exceção foram os participantes que simularam lutas com personagens da série Samurai Spirits. A performance de Disgaea 2 chamou bastante a atenção, tanto por ter sido em português como por ter apelado para o humor (não por coincidência, levou o terceiro lugar). A dupla que executou uma cena de Castlevania também caprichou no figurino e na performance – o Dracula era impressionante, seja na interpretação, seja na semelhança física. E havia o belíssimo NiGHTS, que mereceu uma das apresentações mais criativas, que combinou com a sensação onírica proporcionada pelo game.


A expectativa dos participantes, antes do anúncio dos vencedores

Os dois melhores na opinião do júri acabaram sendo cosplays baseados em animes: o segundo lugar ficou com uma performance irretocável de A Princesa e o Cavaleiro, um dos favoritos da infância. E o primeiro foi merecido, com o impressionante Burst Angel, estrelado pela mercenária Jo (Jéssica Campos) e o robô Jango (Gabriel Niemietz). Confesso que não conhecia os personagens, mas nem precisava: não havia quem não ficasse chocado com a construção perfeita da criatura de 2m60, com direito a efeitos especiais, ou com a interpretação fria e muito compenetrada da heroína.


Jéssica e Gabriel comemoram a vitória – e a passagem para o Japão

A semelhança mais óbvia que encontrei entre esses eventos: ambos apresentam figurinos que dificilmente veremos alguém usando em público. Há uma outra: no que diz respeito ao fanatismo, entrega e devoção, não encontrei discrepância alguma entre um desfile de moda e um evento de cosplays. Pensando bem, o que diferencia um apreciador de quadrinhos e animes, um jogador de games, um torcedor de futebol, um roqueiro apaixonado e um seguidor da moda? Nada. Seja em desfiles, shows, lan houses, eventos ou em estádios, o verdadeiro fã sempre irá se comportar... como um fã de verdade. Não que exista algum problema nisso...

enviada por Pablo Miyazawa






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